ESPAÇO DE APOIO A INFORTUNADOS, MISERÁVEIS E DESGRAÇADOS EM GERAL
Sábado, 9 de Agosto de 2008
Post em jeito de dedo no ar

1. Peço desde já desculpa por interromper o processo de consagração dos GI Joes da polícia portuguesa em semi-deuses, mas já começa a fartar que se classifique o fim do sequestro no banco como uma operação de "elevado sucesso", que "ficará para a história". Pode parecer pouco, mas morreram pessoas, por isso acharia um pouco mais adequado considerar como "elevado sucesso" as inúmeras situações de sequestro em Portugal que foram resolvidas através de negociação ou de uma acção policial menos violenta, mas igualmente expedita e eficaz. Esta, porque foram salvos os reféns, teve um desfecho positivo, mas não mais do que isso.

 

2. Por mais que os GI Joes-comentadores digam o contrário na televisão, há pormenores da acção policial que suscitam interrogações legítimas. Alguém, que não o Moita Flores, deveria responder às seguintes perguntas:

- Por que motivo foi esta a primeira operação do género em que foi dada ordem para atirar? Que diferenças objectivas houve face a outros casos de sequestro com armas de fogo? É ou não verdade que os assaltantes deram indícios de serem algo "trapalhões" e inexperientes?

- É normal que um sniper dispare contra um alvo que está escondido atrás de um refém, em movimento, e com um vidro de espessura considerável pelo meio? Estas condições não prejudicam a eficácia e trajectória do tiro?

 

3. Esta última questão não é de somenos, porque foi o que aconteceu no segundo tiro, que deixou um dos assaltantes feridos, como se pode constatar neste vídeo. Vejam-se agora as explicações de um instrutor de tiro de uma força policial, ouvido pela agência Lusa sob anonimato:

 

"A percentagem de erro de um atirador furtivo é zero por cento. A sua intenção é atirar para matar. Na maioria dos cenários não há alternativa, nomeadamente quando há reféns e a sua vida está em perigo".

 

Quando o diálogo falha, cabe ao posto de comando tomar decisões e dar a ordem ao atirador para actuar quando "tiver o quadro limpo".

 

"É o atirador que decide o momento de disparar. O sniper só actua quando não há qualquer risco para o refém. Através da mira telescópica, este consegue ver tudo ao pormenor, inclusive onde está o dedo do sequestrador no gatilho da arma".

 

"Quando o tiro é frontal, o alvo de um sniper é a cavidade crânio-orbital, um triângulo que vai da linha das sobrancelhas à base do nariz. O projéctil atravessa o crânio e o cérebro e acerta no tronco raquidiano, desligando completamente a máquina humana. Este é o tiro ideal".

 

Aquele segundo tiro foi feito sem qualquer risco para o refém? Pelas explicações do instrutor, o simples facto de o segundo sequestrador ter ficado vivo mostra que o sniper falhou o seu objectivo primário e não foi 100% eficaz. Este segundo tiro foi bem efectuado? É ou não verdade que o assaltante ainda disparou um tiro depois de atingido? A que distância do refém passou a bala do sniper? Só depois de todas estas perguntas estarem respondidas, e isso deverá estar a ser feito internamente, poderá ser estabelecido o grau de eficiência e bondade da acção policial. E verificado se houve alguma dose de sorte pelo meio ou não.

 

4. Por fim, restam as dúvidas que dificilmente serão respondidas. Se os sequestradores fossem cidadãos portugueses, a ordem para atirar teria sido dada? E o desfecho da operação, teria gerado tamanha exultação da opinião pública?



publicado por João às 01:21
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1 comentário:
De the biggest dreamer a 31 de Outubro de 2008 às 21:09
Muito pertinente a ultima pergunta


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